Elas amam o que fazem

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Elas amam o que fazem

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Elas amam o que fazem - Perfis de mulheres jornalistas

Organização: Renata Carraro

Autores: Alunos do curso de Jornalismo da Faculdades Rio Branco

Formato: 15,5 x 22,5 cm - 344 páginas

Sobre o livro:

“– Como se homenageia um grande repórter? – ouvi Eliane Brum perguntar, durante um evento algum tempo atrás. – Escutando-o!” Assim escreve Jayane Silva, em um texto que nos faz viajar pela obra da jornalista gaúcha, interligando-a com a história e a personalidade de uma das maiores repórteres do Brasil.

Nesta nova edição da série “Jornalistando”, temos o privilégio de embarcar em 15 viagens diferentes, de adentrar na vida e no trabalho de grandes jornalistas mulheres que têm algo em comum: são apaixonadas pelo que fazem. A própria Eliane Brum diz: “Uma das minhas regras pessoais é estar tomada pelo assunto, porque essa é a primeira verdade que ofereço ao leitor”. De onde vem a sensibilidade aguda dessa jornalista, que uma vez me fez chorar copiosamente numa oficina do “Profissão Repórter”?

Vez ou outra chamamos alguns profissionais da imprensa para darem palestras à equipe. Uma vez Eliane foi. Sentou-se calmamente e, com a voz pausada e profunda, leu um texto do livro A Vida que ninguém vê. Era sobre Oscar Kulemkamp, um senhor de 85 anos que abarrotou a casa, o quintal, a calçada, com “restos de existências alheias”:

Quando surge lá de dentro desconfiado e sorridente, Oscar Kulemkamp já vai explicando que um dia, um dia em breve vai levar tudo aquilo para construir uma casa na praia. Uma Pasárgada onde bonecas cansadas, fotografias de crianças que já se deixou de amar e cartões de aniversário que se foram não virem lixo. Um mundo onde nem coisas nem pessoas sejam descartáveis. Onde nada nem ninguém fique obsoleto depois de velho, quebrado ou torto. Um mundo onde todos tenham igual valor. E a nenhum seja dado uma lixeira por destino.

Uma emoção forte tomou conta de mim, e eu não consegui conter as lágrimas. Que olhar mais carinhoso e delicado! Na época, pensei que uma pessoa muito egocentrada seria incapaz de escrever aquilo, que, para chegar ao outro, o jornalista deve, em certa medida, abdicar um pouco de si mesmo. Qual foi a minha surpresa quando Jayane faz esta revelação no texto sobre Eliane:

Entrou no teatro da vida já como atriz substituta. A protagonista, sua irmã mais velha, morrera com apenas 5 meses de existência, vítima de uma doença que nem o melhor dramaturgo da época poderia prever. Nasceu, então, rejeitada pelo público. Ou pelo menos era assim que se sentia, como conta em Meus desacontecimentos (LeYa, 2014). Nesse contexto, não conseguiu incorporar seu papel e passou a infância tentando encontrar seu lugar.

As viagens mais interessantes do livro são como essa, que levam ao coração dessas mulheres fortes e polivalentes, que nos revelam suas camadas ocultas. Fui para bem longe quando li o perfil da jornalista e professora Regiani Ritter, escrito por Gigi Pavanello. Fiquei imaginando a riqueza do encontro de duas mulheres de gerações e espaços diferentes. Minha leitura foi entremeada por interjeições. Meu marido estava ocupado trabalhando, e eu não parava de interrompê-lo. Tinha a necessidade de dividir aquelas revelações, quase uma a cada frase.

– Eu perdi um pouco da minha memória, da minha bondade, da minha vontade, sei lá, eu perdi um pouco de tudo... É a primeira vez que falo disso. Nunca havia falado pra ninguém.

Nesse momento entendi por que ela nunca antes havia tocado no assunto. Não é fácil. E queria eu que tivesse acabado aqui. Mas houve um segundo casamento e uma nova gravidez.

É interessante esse exercício de entrevistar as entrevistadoras, e me surpreendo com a coragem dessas mulheres jornalistas ao se abrirem. Considero inclusive um ato de honestidade. Ao descobrirmos as motivações e o passado delas, passamos a entender qual é o lugar de fala de cada uma, como a história pessoal interfere na visão de mundo delas e como esse olhar determina  o encaminhamento das histórias que elas contam. 

Kaique Dalapola foi muito feliz ao escolher o subtítulo do texto de perfil da jornalista Tatiana Merlino: “A mulher que virou jornalista cinco anos antes de nascer”. Começa assim:

Sobrinha de jornalista que viveu e produziu belas narrativas para o Jornal da Tarde e a antiga Folha da Manhã, Luiz Eduardo Merlino, Tatiana não ouviu nenhum parágrafo sendo contado pelo tio, que morreu em 1971, cinco anos antes de ela nascer. Ficou para a história. Jornalista e militante de esquerda, foi assassinado pela Ditadura Militar que esteve no comando do Brasil entre 1964 e 1985.

Somos levados numa viagem ao passado, mais precisamente à adolescência de Tatiana, e sentamos à mesa com ela e seu pai, o delegado Adalberto Dias de Almeida. Testemunhamos as  discussões ideológicas. Motivada pela militância do tio, a própria Tatiana começara a defender posições de esquerda, contrariando as vontades do pai conservador.

Tatiana, como muitas outras perfiladas, e como eu mesma, chegam a um momento-chave na carreira: o nascimento do filho, e se deparam com  todas as transformações decorrentes da maternidade.

– Passo por um processo de reflexão profissional. Obviamente não vou abrir mão da profissão, pois é algo que faz parte da minha vida e pelo que eu também sou muito apaixonada. Mas ao mesmo tempo não quero perder nenhuma fase da Catarina.

Em mais de uma viagem, entramos nas casas dessas jornalistas e quase conseguimos ouvi-las respondendo em sussurros para não acordar os bebês. No texto em que a imaginação dá liberdade à observação, Pedro Santos constrói cenas da jornalista Juliana Verboonen com a recém-nascida Charlotte, fruto da união com um americano:

Mostraria pelo reflexo embaçado do espelho, por causa do vapor da ducha que enchia a banheira do bebê, que teria que lidar com a febre, o medo do vento e que, além disso, decoraria a frase “Leva a blusa!”, dessa vez sem TP.

E antevê Charlotte daqui a alguns anos: 

A saudade bateria forte quando um dia a filha, quem sabe?, fosse morar fora do país. Mas seria importante dar força, incentivar. E ela o faria. Deve existir algum tipo de estatuto que traz milhares de benefícios quando a mulher se torna mãe.

Muito antes de minha filha Sofia nascer, ouvia minha chefe no “Profissão Repórter”, e uma das perfiladas deste livro, Janaina Pirola, repetir com certa frequência: algumas reportagens se tornam mais complicadas depois que a gente vira mãe. A frase parecia um pouco abstrata naquela época, mas depois fez todo o sentido.

É difícil explicar, mas posso dizer que nós, mães, passamos a enxergar os seres humanos de outra forma depois que temos um filho. Nós os vemos pequenos, frágeis, inocentes, e passamos a nos sensibilizar mais não só com situações que envolvem crianças, mas com pessoas de todas as idades. Passamos a julgar menos. Entendemos como o carinho e a atenção da família são primordiais para o desenvolvimento humano.

Um pensamento me acompanhou do início ao fim dessa odisseia por 15 retratos de jornalistas brilhantes. Apesar de algumas terem desavenças com os pais – Regiani Ritter conta a história mais grave –  nenhuma passou por uma situação de abandono. Como julgar uma pessoa que não teve essa base familiar? Libertar-se do julgamento é sair de uma prisão, é multiplicar o amor e desarmar-se no encontro com o outro, qualquer que seja esse outro.

Kathia Laurindo conta no perfil de Adriana Couto que os pais da jornalista sempre foram obcecados pela educação das filhas, apesar de não terem passado da 4ª série do Ensino Fundamental.

(A mãe) Dona Conceição trabalhou como doméstica em casa de família por muito tempo. Ela sempre soube muito bem qual o sentimento de servir pessoas que olham para você e te tratam com indiferença. Não desejava que as filhas passassem por isso. Via nos estudos a grande oportunidade de uma vida melhor, com perspectivas maiores.

Sabemos pelo texto de Ariane Marcinari que a repórter Andrea Dip fortaleceu suas posições feministas quando era pequena, pois teve uma infância “livre de rótulos”. A jornalista conta que o pai nunca a tratou diferente por ser menina: “Ganhava carrinhos e brincava de espada com o pai, preferindo isso às panelinhas e aos vestidinhos longos com tules e babados”. A dedicação dos pais têm relação direta com o sucesso das filhas, seja no estímulo ao autodidatismo de Bárbara Ladeia ou no incentivo às viagens de Camila Moraes.

Mesmo com o suporte da família, ninguém está imune à insegurança, e as jornalistas perfiladas expõem esses momentos de forma delicada e generosa. Outro pensamento vem enquanto leio esses relatos. Não podemos generalizar, mas tenho a impressão de que as mulheres se sentem mais à vontade para falar de suas encanações do que os homens. Seres do sexo masculino, deixa eu contar um segredinho pra vocês: é tão libertador quebrar a casca da suposta perfeição, sair do pedestal que alguns constroem para os jornalistas...

A jornalista e professora Patrícia Paixão conta para Jemima Barbosa:

Na adolescência havia algo que a incomodava demais: o complexo de inferioridade. Patrícia não se sentia confortável com a aparência de seu cabelo e não gostava do próprio corpo. Olhava-se no espelho e se achava muito magra. Na época, as amigas já namoravam e ela, nada. E como não conseguisse atenção pelo lado do amor, quis ser lembrada por dar as melhores festas.

Quem assiste à apresentadora Adriana Couto falar com muita propriedade sobre todos os tipos de arte no “Metrópolis”, da TV Cultura, pode não imaginar que ela já foi descontente com a própria aparência:

 

Quando jovem, eram muitas as críticas contra si mesma por causa da autoestima baixa.

– Que menina não coloca a toalha na cabeça, fingindo que tem o cabelão? – pergunta (...)

Para terminar esse assunto, Adriana cita algo que ouviu a consulesa da França, Alexandra Loras, dizer inúmeras vezes em suas entrevistas: “Imagine que você, ‘branco’, um dia acorda e, ao ligar a televisão, só vê pessoas negras apresentando os principais programas. E ao sair na rua, ir a uma banca de jornal ou ver outdoors só encontrar pessoas negras sendo representadas. Como se sentiria? É isso que os negros enfrentam incansavelmente, todos os dias”.

 

É triste o relato que Patrícia Campos faz a Isabella Liporoni quando se lembra da viagem a New Orleans um ano depois da passagem do furacão Katrina, em 2005:

 

– Era muito impressionante, tudo estava completamente destruído. Imagine umas casas cheias de lama dentro, como se tivesse rolado uma mega enchente e ficou tudo lá daquele jeito.

As áreas mais pobres eram as que tinham maior concentração de negros. Eram também as áreas que receberam menos socorro e menos dinheiro para a reconstrução.

 

Sua vivência em Nova York no dia 11 de setembro de 2001 é de tirar o fôlego:

Sirenes de ambulâncias, pessoas gritando, apresentadores anunciando a tragédia, tantos sons e não se escuta nada (...) Patrícia desliga a televisão, pega suas coisas e sai correndo pela porta da frente. Ela precisa tentar chegar lá.

 

A história tem como desfecho uma reportagem de recorte inusitado e original.

A viagem pelos Estados Unidos não acabou. Patrícia conta a Isabella que foi a primeira jornalista brasileira a entrevistar o então presidente George W. Bush, e ainda recebeu uma carta dele mais tarde, em sua casa.

Outra viagem em terras internacionais que nos arrebata é a da jornalista Adriana Carranca, escrita por Quezia Barbosa. A autora de Malala, a menina que queria ir para escola, Adriana enaltece a importância de um olhar brasileiro sobre os conflitos mundiais e se preocupa com as matérias de agência como única fonte de informação.

Com o intuito de entender a história recente para além da versão das agências, ela foi ao Afeganistão para retratar os dez anos de guerra no país desde o 11 de Setembro sob o ponto de vista dos afegãos. Foi então que conheceu Washida:

 

Era uma mulher de trinta e poucos anos, analfabeta, tinha seis filhos. Não sabia onde eram os EUA, nem quem era seu presidente, não tinha nenhuma noção de mapa. Tinha uma vaga memória do 11 de Setembro e ouvido falar muito vagamente também de Bin Laden. De repente, quando estava vindo de um casamento, um carro na frente do que ela estava explodiu. O marido morreu. Ela teve queimaduras e perdeu os dois braços.

– Em nosso primeiro encontro, quando ela me revelou o sorriso por trás do portão da pequena casa no assentamento precário de Kocha Kharabad, em Kart-e Nau, uma das áreas mais pobres de Cabul, a primeira coisa que me veio à mente foi como essa mulher ainda era capaz de sorrir (...) 

 

Adriana sempre acha que não deu tempo de entender tudo, e por isso ela volta.

 

Talvez seja por isso que, ao fim dessas 15 viagens, voltamos com mais questões do que tínhamos antes de embarcar na leitura. Emergimos com vontade de conhecer mais sobre as mulheres retratadas e reconhecemos em nós um pouco de cada uma delas. Que a curiosidade, a entrega, a paixão e a vontade de ouvir os outros, traços que as unem, nos inspire a sair em busca de novas histórias e a encontrar melhores formas de contá-las.  

Eliane Scardovelli

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